segunda-feira, abril 03, 2006

Do Exército e suas manifestações


A nota divulgada pelo Exército em seu site na internet ( Ordem do Dia – 31 de março - www.exercito.gov.br), na qual é enaltecido o que eles gostam de considerar como “Revolução de Março de 1964” causa profundo desconforto naqueles que conhecem as conseqüências do golpe e o tipo de governo exercido pelos militares até a auto-extinção do regime ditatorial.

Os mais paranóicos e aqueles que desfrutaram da intimidade dos porões da ditadura talvez tenham sentido algo bem mais forte do que um mero desconforto ao ler a referida nota. Da minha parte, senti um forte embrulho no estômago e uma certa perplexidade ao ler o seguinte trecho:

"Esse Exército – o seu Exército – é conciliador sem perder a altivez, generoso com os vencidos, nobre nas atitudes, respeitador da lei, avesso aos ressentimentos – herdeiro legítimo que é do Duque de Caxias, nosso Patrono maior, o Pacificador.
Nesse contexto, o 31 de Março insere-se, pois, na História pátria e é sob o prisma dos valores imutáveis de nossa Força e da dinâmica conjuntural que o entendemos. É memória, dignificado à época pelo incontestável apoio popular, e une-se, vigorosamente, aos demais acontecimentos vividos, para alicerçar, em cada brasileiro, a convicção perene de que preservar a democracia é dever nacional
".

Agradecendo a Deus pelo privilégio de viver em uma época em que a liberdade de manifestação do pensamento é um dos valores supremos de nossa ordem constitucional, não posso deixar de traçar alguns comentários acerca desse trecho do manifesto.

Dentro do contexto histórico a que faz referência, creio que ao aludir a “Exército ....respeitador da lei “, o autor do escrito não fazia referência àquele famoso 31 de março ou, se fazia, devia referir-se tão-somente ao respeito aos Atos Institucionais que se proliferaram durante o brutal e atrapalhado governo militar.

Quanto ao 31 de Março inserir-se “na História pátria e é sob o prisma dos valores imutáveis de nossa Força e dinâmica conjuntural que o entendemos”, não quero acreditar que o autor da nota estivesse fazendo apologia à Força que milhares de brasileiros sentiu na carne ferida, nas entranhas perfuradas, nos nervos destruídos, na alma dilacerada, na honra vilipendiada e na boca amordaçada.

Em outro trecho, creio que o autor confundiu “apoio popular” com apoio da elites.

Já com relação a “convicção perene de que preservar a democracia é dever nacional”, prefiro crer que o conceito de democracia conservado pela instituição nos dias de hoje não seja o mesmo que manifestava nos anos de chumbo. Espero que nesse trecho o autor do escrito tenha sido sincero.

Prefiro dormir esta noite com a certeza de que os tigres não mais sairão das jaulas, e que o Exército tem consciência de que para a História, o 31 de março representa o alvorecer de um período de trevas que se abateu sobre a nação brasileira durante mais de 20 anos. Prefiro dormir esta noite com a certeza de que o Exército, no seu íntimo, tem consciência de que o regime militar foi uma vergonha para o Brasil e, sobretudo, uma vergonha para a própria instituição
.

domingo, abril 02, 2006

Eleições:182 dias

A notícia publicada na edição deste domingo do jornal Folha de São Paula, de que a Companhia de Transmissão de Energia Elétrica Paulista pagou R$60mil a título de patrocínio institucional a uma revista de propriedade do médico acupunturista de Geraldo Alckmin, serve de alerta àqueles que começam a vislumbrar no candidato tucano a melhor alternativa à reeleição de Lula. Se criticamos o uso da máquina pública pelo PT em benefício da candidatura de Lula, em especial quando nos referimos aos excessivos gastos com publicidade realizados pelo governo federal com intuito manifestamente eleitoreiro, não podemos fazer vistas grossas quando o tucanato paulista adota a mesma prática. Cabe também lembrar que, no último ano do governo de FHC, os gastos realizados pelo governo federal com publicidade oficial foram iguais ou maiores que os realizados pelo governo lulista.O próprio Alckmin dobrou os gastos com publicidade oficial antes de deixar o governo paulista. Somando-se a isso o envolvimento do Azeredo com o valerioduto, resta evidente que as semelhanças entre o tucanato e o lulismo não se restringem à política econômica.


Ronaldinho Gaúcho


Com o que vem fazendo pelo Barcelona, e acreditamos que fará pela Seleção Brasileira na Copa do Mundo, falta pouco para que Ronaldinho Gaúcho iguale-se a Pelé e Maradona. Se conquistar a Liga dos Campeões da Europa pelo Barcelona e for escolhido como melhor jogador do Mundial na Alemanha, trazendo o hexacampeonato para o Brasil, não poderá ser negado à Ronaldinho Gaúcho o status de um dos três maiores jogadores de todos os tempos.

sábado, abril 01, 2006

Depois do Grenal

A corda rebentou. Ainda resta uma tentativa.












Ludovico, o ingênuo


Ludovico anda atormentado por uma crônica crise de insônia que já se arrasta por mais de dois anos. Todas as noites é a mesma coisa: após ler algumas páginas da Agatha Christie ou do Conan Doyle, apaga a luz, põe a cabeça no travesseiro e, quando está quase adormecendo, repentinamente se vê transportado para Brasília. Sua mente fica vagando pelos corredores do Planalto, do Congresso Nacional, pelo Supremo...Teve uma noite em que a crise de insônia foi mais aguda, estendeu-se por mais de duas horas. Foi no dia em que o Francenildo apareceu no Jornal Nacional. Ludovico não consegue entender como pode um sujeito chamado Francenildo, um simples caseiro, ter intimidades com o ex-Ministro da Fazenda. Pior que isso: Ludovico não compreende por qual razão a direção da Caixa Econômica iria quebrar o sigilo bancário do Francenildo. Chegou a dar razão à Ideli Salvati:”Qualquer um pode perder o seu extrato bancário.....”. Ludovico também não entendeu por que o Palocci pediu exoneração após terem revelado a estória da quebra do sigilo. Ludovico também não entendeu porque condenaram a deputada gordinha que resolveu dançar comemorando a absolvição de seu amado colega de bancada. Também não entende por que as pessoas não entendem que o Lula realmente não sabia nada a respeito do que se passava nas entranhas do poder. Ludovico fica horas rolando na cama, sem conseguir dormir, se atormentando por tantas dúvidas.

Eleições: 183 dias

Dois sujeitos bebem tranqüilamente a cervejinha do final de tarde, à beira-mar, contemplando o desfilar de belas mulheres. De repente, um deles volta-se para o outro e diz:

- Certa vez um Presidente da República revelou:”Só num país como o Brasil na situação atual eu poderia chegar a presidente da República”. “Como é que se chega ao meu nome? Ora, porque fulano é cretino, sicrano é burro, beltrano é safado! Isso é jeito?” – e sorve um gole de cerveja – E tu, vais votar em quem para presidente?

Após tomar um gole de cerveja, estalando os beiços de prazer, o outro responde:

- No segundo turno, se houver, vou votar no Lula...e tu?

O outro, ainda com a frase do ex-presidente na cabeça, sem titubear, responde:

- Eu também...


Grenal


É hoje à tarde, às 16 horas, no Olímpico. Já faz quase dois anos. Inevitável sentir saudades – apesar do último resultado. Vamos para o gramado sem maiores responsabilidades: a razão e o bom senso nos dão a convicção de que o Inter é infinitamente superior. Para nós, que já subimos ao cadafalso, só resta torcer para que a corda não suporte o peso da nossa camisa. Apesar da razão, ainda tenho esperança.



Homens ao espaço


Aqueles que nunca leram os livros do Arthur Clarke, nem os do Azimov e muito menos os do Júlio Verne têm sérias dificuldades em encontrar razões para os gastos de bilhões de dólares com programas de exploração espacial. Aqueles que, além de não gostarem de ficção científica, não têm nenhum interesse por astrofísica ou astronomia, acham perda de tempo e de dinheiro investir em viagens espaciais.

Não sei se já foi feita alguma pesquisa a respeito, mas dado o número de pessoas que para mim já manifestaram essa dúvida, não são poucos os que sequer acreditam que o homem realmente um dia pisou na Lua: “Aquilo foi montagem de Hollywood”, costumam dizer.

Prefiro ignorar o pensamento desses últimos, mas até compreendo a opinião dos primeiros: em um mundo em que tantos morrem de fome, de sede ou por doenças contra as quais há muito tempo já foram desenvolvidas vacinas, é difícil legitimar o investimento de bilhões de dólares na exploração espacial.

Reconheço que temos problemas mais urgentes para resolver do que buscar habitat em outras partes do Universo. Para que uma estação espacial quando a cada dia milhões morrem de fome na África?

Prefiro contrapor a essa questão uma outra: para que investir bilhões de dólares em gastos militares quando a cada dia milhões de crianças morrem de fome em todo o mundo, ao mesmo tempo em que fazemos de tudo para que a vida se torne cada vez mais inviável em nosso planeta, nos levando a pensar com seriedade em buscar uma nova casa para a humanidade?

Está certo, atualmente, tão utópico quanto acreditar que possamos canalizar o dinheiro despendido com material bélico para acabar com a fome na África é pensar em construir hotéis-fazenda em Marte.

Realizei todo esse volteio para chegar ao tema da viagem do primeiro brasileiro ao espaço. Pagamos 10 milhões de dólares pelo passeio de 10 dias de um compatriota até a estação espacial. Querer comparar esse feito com o da invenção do avião pelo Santos Dumont é sacrilégio.

Desconheço a natureza dos experimentos que o Marcos Pontes levou para o espaço, mas pelo pouco destaque que mereceram da mídia, deduzo que não têm maior relevância. A viagem, em si, acredito que tenha valor, quando muito, histórico. Talvez maior que o valor histórico seja o aspecto circense que a envolveu. Utilidade prática, nenhuma, como a própria comunidade científica brasileira manifestou. Já li que essa viagem é obrigação assumida pelo Brasil ao assinar o tratado de desenvolvimento da Estação Espacial Internacional. Mas se é essa a justificativa, após mandarmos um brasileiro para a Estação, na qual ficará somente por uma semana, qual a próxima contribuição do Brasil para o desenvolvimento da Estação Espacial Internacional? Astronautas brasileiros passarão a viajar com freqüência para lá? Se sim, a que custo? Ou melhor, com o dinheiro de quem?

A comunidade científica brasileira, dentre as críticas menos ácidas que fez a essa viagem, manifestou-se dizendo que a viagem do astronauta brasileiro só tem valor como divulgação científica, pois chamaria a atenção, sobretudo das crianças, a respeito da importância da exploração espacial. Muito pouco para um país que não consegue subsidiar nem mesmo a construção de um foguete capaz de lhe permitir enviar satélites para o espaço sem precisar alugar foguetes russos ou americanos.

Afora tudo isso, abstraindo o racional, deixando-se levar pelo sentimentalismo tupiniquim e pela paixão pelas estrelas, é emocionante ter um brasileiro, neste exato momento, passeando pelo espaço.

terça-feira, março 28, 2006

Declarações:fragmentos


Amo tua beleza pálida, de aroma suave e sabor adocicado
Amo tua beleza pálida, eventualmente ruborizada, eternamente delicada
Misto de loucura e sensatez, avidez e enternecimento
De teus lábios guardo tua alma. De tua boca, incertezas

Das madrugadas dionisíacas conservo nossos momentos de ternura e devassidão
Cenário beatnik, pintado sobre colchões macios e corpos entrelaçados
Coltrane, Miles, teu coração batendo em meu peito .
Vinho.

A janela aberta, tua foto na parede, sem palavras, apenas línguas se acariciando.
Amo tua espontaneidade, temo tua fragilidade.
Lá fora, trincheiras são meticulosamente cavadas.
Sobre a cômoda, um relógio estragado.

Em matéria de sentimentos, palavras podem ser meros ardis, somente os gestos são sinceros.
Contemplo agora teu sono tranqüilo, com o calor de teu rosto a queimar-me a face.
Através da fumaça, vejo cometas rasgando o breu da noite.
Instantes líricos, como o teu delicado fechar de olhos.

domingo, março 26, 2006

Admirável Mundo Novo


No Admirável Mundo Novo de Aldous Huxley, o amor, em todas as suas modalidades, é considerado obsceno. A família foi abolida, sendo os termos pai e mãe considerados palavras ridículas. A prática do sexo - mais por ser um meio de satisfação de uma necessidade fisiológica do que como um meio de obtenção de prazer e, em nenhum hipótese, para fins de procriação, é incentivada nos seres humanos desde tenra idade: vemos crianças envolvidas em folguedos eróticos em vários trechos da história.

A ideologia que permeia o mundo social descrito no livro tem como característica principal a primazia da comunidade em relação ao indivíduo; o todo é mais importante que o um, e o um pode ser eliminado em benefício do todo, mesmo que mal nenhum pratique contra este.

A morte é banalizada: quando o “selvagem” debulha-se em lágrimas perante a agonia da mãe em seu leito hospitalar, deixa curiosas as crianças que recebiam aulas a respeito da insignificância da morte, além de sofrer forte reprimenda por parte da enfermeira que as educava.

Não há espaço para sentimento; a religião, pelo menos como a conhecemos hoje, foi varrida do “mundo civilizado”; a humanidade é apenas um meio para que seja atingido o fim supremo que é a garantia da ordem social; até mesmo a ciência que conduziu à civilização já não é mais valorizada como um bem – após atingir o apogeu do progresso, declinou para o perigeu da manutenção da ordem. Todos os valores foram suprimidos em prol de um totalitarismo frio e sufocante, baseado unicamente no materialismo.

Não mais se venera os ensinamentos de Cristo, nem de Maomé, nem de Moisés, nem de Buda, nem de Brahma, nem de Shiva, nem de Zoaroastro ou de quaisquer outras divindades....Ford é a Divindade Suprema.

No Admirável Mundo Novo, a felicidade está ao alcance de qualquer um que resolva ingerir um comprimido de soma. Ser feliz não é um direito, mas um dever imposto através do avanço da indústria farmacêutica.

A genética dividiu a sociedade em castas, realizando um rígida divisão do trabalho: cada ser humano que vai nascer é geneticamente programado para desempenhar o papel que a comunidade necessita que ele desempenhe.

Não há liberdade para amar, para adorar, para escolher, para questionar, nem mesmo para sofrer: os seres manipulados para serem geneticamente inferiores não possuem capacidade de pensamento que lhes permita dar-se conta da condição que lhes foi imposta.

Tudo é padronizado, minuciosamente estilizado, seguindo um pragmatismo inelutável.

A literatura não mais existe: o mais próximo da arte é o cinema sensível e a música sintética.

O livro foi escrito em 1932: Huxley era um visionário.

Auto-análise

Para o “cidadão comum”, que por inapetência pelo poder ou excesso de auto-crítica suficiente para demovê-lo de qualquer pretensão com relação a cargos políticos, é muito difícil digerir as notícias reveladas pela imprensa a respeito dos meandros da política profissional. Na verdade, esse gênero que denominei de cidadão comum poderia ser subdividido em duas espécies: a dos que se desiludiram completamente com seus representantes e resolveram simplesmente se acomodar em meio ao mar de esterco, preferindo apenas manifestar-se dizendo que têm horror de política, de que a política é assim mesmo e não há como mudá-la; e a dos que, apesar de igualmente desiludidos, ainda têm lá no fundo da alma um pouco de esperança de que as coisas vão melhorar algum dia, e ainda sentem-se responsáveis por essa melhora das coisas, ainda que ela só venha a se realizar algumas centenas de anos após a sua morte.
Em ano de eleições, é de vital importância que cada “cidadão comum” faça a sua auto-análise e escolha em qual dessas duas categorias pretenderá se enquadrar na hora de digitar seu voto.




De denúncias, denunciados, denunciantes e denuncismos


Deveria ser revolta, mas acho que já não é este o sentimento. O último espetáculo tragicômico que ainda ecoa dos picadeiros de Brasília – aquele cujos protagonistas são um caseiro, uma instituição financeira de capital público, um médico-economista, um notebook, tucanos, arapongas, e outros animais semelhantes – causa-me tristeza, mas já não me é capaz de causar revolta. Que o jogo é jogado de forma desleal por ambos os lados, isso é e sempre foi evidente – agora, não consigo compreender o porquê de apesar de ambos terem sofrido derrotas nos últimos tempos ainda insistirem em adotar fielmente as mesmas estratégias: não dava ao menos para dissimular com um pouco mais de mestria?


Munique

Após ver o filme entendi o porquê da polêmica:a imparcialidade, o “encimadomurismo” possui uma conotação pejorativa quando estão em jogo rivalidades políticas. Li que o Spielberg levou pau dos dois lados: os palestinos o acusaram de ignorar as causas legitimadoras do ataque contra a delegação olímpica israelense; já os israelenses o acusaram de qualificar como terrorista a sua legítima retaliação contra a ação do Setembro Negro.
Nenhuma das duas acusações se sustentam após uma análise descompromissada do filme. Nem mesmo podemos atribuir ao filme uma posição imparcial: Munique é um filme com forte conotação ideológica e, como tal, não se isenta de afirmar um posicionamento com relação ao conflito israelo-palestino.
Spielberg é judeu, mas não é sionista. Da maneira como foi apresentado, o filme poderia ter sido feito por um palestino, desde que não fosse simpatizante do Hammas, do Hezzbolah ou similares.A ideologia que permeia o filme é a única capaz de algum dia por fim ao histórico conflito entre israelenses e palestinos. Munique nos mostra que os dois lados têm as suas razões para estarem lutando, mas nenhuma delas é capaz de suplantar inequivocamente a outra; mas principalmente o que o filme nos revela é que a tolerância entre palestinos e israelenses, considerados estes enquanto povo, é algo possível, desde que haja vontade política para tal.

domingo, março 19, 2006

Don Quijote


Confesso que minha primeira leitura do Don Quijote teve um forte quê de heresia, uma vez que feita a partir de uma tradução para o português. Os amantes da obra sentir-se-ão fortemente motivados a lançarem-me na fogueira após esta confissão; ou no mínimo afirmarão que eu não consegui capturar na sua integridade a beleza estética da obra, pois por melhor que seja a tradução, esta diminui em muito a riqueza de conteúdo que possui o original. Tratando-se de El Ingenioso Hidalgo Don Quijote de la Mancha, essa perda é maior ainda – como me dei conta ao reler a obra em espanhol.

Quando me propus a escrever este texto, havia lido a obra uma vez e em português, como dito acima. Quando comecei a articular idéias a fim de começar a escrever, resolvi tomar vergonha na cara e reler a obra, desta vez direto do espanhol. Tenho certeza que esta segunda leitura foi mais rica do que a primeira, e me propiciou maior segurança para fazer uma abordagem livre da obra.

Considerado o melhor livro de todos os tempos, a obra de Cervantes causou-me profundo impacto: das leituras que fiz vislumbrei a presença de duas dicotomias: sanidade e insanidade;sabedoria formal, derivada dos livros e sabedoria prática, derivada das experiências da vida.

São essas dicotomias que me despertaram a atenção ao destrinchar a personalidade dos dois personagens principais da obra.

De um lado temos Don Quijote: leitor voraz, dotado de uma vasta cultura conquistada através dos livros. De outro temos Sancho Panza: um camponês de vida simples, analfabeto.

O Quijote, embora culto, com um forte arcabouço de informações retirada dos livros, acaba se deixando levar pelas estórias que lia, mostrando-se incapaz de discernir entre realidade e imaginação.

Sancho, por outro lado, por saber-se ignorante, sem estudo, admira a inteligência e a cultura do amo; apesar dessa admiração, e de achar-se pequeno ante a sabedoria do Quijote, percebe logo a insanidade deste, não compartilhando de suas visões delirantes.

Após ler tantos livros de cavalaria, o Quijote chegou a conclusão de que o que o mundo mais precisava era de cavaleiros-andantes, motivo pelo qual resolve lançar-se em busca de aventuras e de fama. Já nas primeiras aventuras, quando chega a uma simples venda e imagina estar chegando em um magnífico castelo, quando encontra duas putas e as trata como se fossem donzelas e, sobretudo, quando atira-se vorazmente com sua lança contra os moinhos-de-vento, que pensava serem gigantes, nos parece evidente a sua insanidade. Mas se louco era, dava-se conta de sua insanidade, embora não a admitindo, como ocorre no episódio dos moinhos, no qual após de forma tortuosa dar-se conta de que estes realmente eram moinhos-de-vento e não gigantes, afirma a Sancho que fora o feiticeiro Freston que transformara os gigantes em moinhos, com a finalidade de humilhá-lo. O mesmo acontece quando avista a sua dulcíssima Dulcinéia Del Toboso: quando percebe que esta não é uma linda donzela, mas uma gorda e feia camponesa, atribui a fealdade desta a um encantamento perpretado por Freston, a fim de afastá-lo de sua amada.

No prólogo do livro, Cervantes manifesta como um dos propósitos da obra realizar uma sátira dos romances de cavalaria, demonstrando o poder de alheamento que a leitura destes produzia.

Cervantes nos diz que a loucura do Quijote seria conseqüência de sua fixação pelos romances de cavalaria - leitor voraz desse gênero literário, acaba sendo contagiado por ele, fazendo-se cavaleiro-andante.

Como contraponto ao herói maluco, temos Sancho Panza, o fiel escudeiro que tenta infrutiferamente trazer o amo de volta à realidade.





Apesar de a priori Sancho ser uma espécie de “lanterna” do Quijote, na medida em que não se deixa contagiar pelas suas visões delirantes, ao mesmo tempo se deixa iludir pela promessa deste de que após vencer terríveis batalhas seria recompensado com uma ilha, da qual tornar-se-ia governador.

Essa aparente contradição propicia a formulação de duas questões: Seria o Quijote realmente louco ou seria ele apenas um indivíduo cansado de sua vida monótona, em virtude da qual se deixa influenciar pelas estórias cheias de aventura e romance dos livros que lia? Se Sancho Panza dava-se conta da loucura do seu amo, por que se deixava levar pela promessa de que seria recompensado com o governo de uma ilha e que enriqueceria através disso?

Quanto à primeira questão, a interpretação que fiz me leva a responder que o Quijote não era louco, isto é, não era mentalmente enfermo. A loucura do Quijote, na minha opinião, é a loucura que contagia os sonhadores, aquele sentimento de inconformidade com os aspectos inaceitáveis da realidade. A loucura do Quijote é a vontade de transcender ao real em busca da realização plena da sua individualidade; é o inconformar-se com as coisas e mandar às favas os convencionalismos e as certezas. A História nos deu uma infinidade de Quijotes: Quando em 1959 uns poucos revolucionários cubanos desembarcaram na Sierra Maestra a fim de derrubar o governo de Fulgêncio Batista, não agiram eles como Don Quijotes? E Che Guevara tentando tomar o poder na Bolívia, com uma tropa de sete homens, também não se assemelhava ao Quijote? Hugo Chavez não seria um Don Quijote venezuelano ? E João Pedro Stédile, sem entrar no mérito de suas atividades, também não se assemelha ao Quijote quando afirma que a luta do MST agora é contra o lucro e o capital?

Um dos Quijotes que construí após a leitura da obra é este: um inconformado, um indivíduo preocupado apenas com o sonhar, sem preocupar-se com os limites que a realidade impõe ao seu sonho.

Mas também me permiti fazer uma outra interpretação, respondendo à questão de uma outra maneira, considerando sobretudo o propósito de Cervantes em satirizar os romances de cavalaria. Sob esse outro prisma, a loucura do Quijote pode ser real , apresentando-se como um produto do poder alienante daquele gênero literário – Após ficar tanto tempo enfurnado em suas leituras, a sua vida se confunde com as ficções que lia; esquece-se da realidade, ou deliberadamente opta por negligenciá-la e passar a viver unicamente a vida que os livros lhe revelam.

Essa segunda interpretação é bastante atual em tempos em que os padrões sociais são autoritariamente ditados pela mídia – mídia eletrônica, sobretudo. Sob esse prisma, a loucura do Quijote era manifesta, consubstanciada na sua incapacidade de adaptar-se à sociedade, em razão da qual constrói um mundo imaginário, cujo cenário é construído a partir dos romances-de-cavalaria.

Mas a riqueza da obra me levou a conferir relevância a um outro aspecto bastante marcante na leitura que fiz: as profundas transformações por que vão passando os dois personagens ao longo da estória.

À medida que se desenrola a narrativa, sobretudo a partir da segunda parte, o iletrado e inculto Sancho Panza vai demonstrando uma sabedoria extraordinária para um simples camponês. Extraí do Capítulo LI um trecho em que, já na condição de governador da Ínsula Barataria – que na realidade de ilha não tinha nada – Sancho é chamado a solucionar um problema jurídico que havia surgido na comunidade:

“Señor: un caudaloso rio dividia dos términos de un mismo señorio ( y esté vuesa merced atento, porque el caso es de importancia, y algo dificultoso); digo, pues, que sobre este rio estaba una puente, y al cabo della una horca, y una como casa de audiencia, en la cual, de ordinario habia cuatro jueces, que juzgaban la ley que puso el dueño del rio, de la puente y del señorío, que era en esta forma: Si alguno pasare por esta puente y del señorío, de una parte á otra, ha de jurar primero adónde, y á qué va; y si jurare verdad, déjenle pasare; y si dijere mentira, muera por ello ahorcado, en la horca que allí se muestra, sin remision alguna. – Sabida esta ley, y la rigurosa condicion della, pasaban muchos; y luego, en lo que juraban, se echaba de ver que decian verdad, y los jueces los dejaban pasar libremente. Sucedió pues, que, tomando juramento á un hombre, juró y dijo, que para el juramento que hacia, que iba á morir en aquella horca que allí estaba, y no á otra cosa. Repararon los jueces en el juramento, y dijeron: Si á este hombre le dejamos pasar libremente, mintió en su juramento, y, conforme á la ley, debe morir; y, si le ahorcamos, él juro que iba á morir en aquella horca, y, habiendo jurado verdad, por la misma ley debe ser libre. – Pídese á vuesa merced, señor gobernador, qué harán los jueces de tal hombre; que aun, hasta ahora, están dudosos y suspensos: y habiendo tenido noticia del agudo y elevado entendimiento de vuesa merced, me enviaron á mí á que suplicase á vuesa merced, de su parte, diese su parecer en tal intricado y dudoso caso.”Á lo que respondió Sancho:”Por cierto, que esos señores jueces que a mí os envian, lo pudieron haber excusado, porque yo soy un hombre que tengo mas de mostrenco que de agudo; pero, con todo eso, repetidme otra vez el negocio, de modo que yo lo entienda; quizá podria ser que diese en el hito.” Volvió otra y otra vez el preguntante á referir lo que primero habia dicho, y Sancho dijo: “Á mi parecer, este negocio en dos paletas le declararé yo; y es así: el tal hombre ¿ jura que va á morir en la horca, y si muere en ella juró verdad, y por la ley puesta merece ser libre, y que pase la puente, y si no le ahorcan juró mentira, y por la misma ley merece que le ahorquen? – Así es como el señor gobernador dice, dijo el mensajero; y, cuanto á la entereza y entendimiento del caso, no hay mas qué pedir ni qué dudar. – Digo yo pues, ahora, replicó Sancho, que deste hombre, aquella parte que juró verdad la dejen pasar, y la que dijo mentira la ahorquen, y desta manera se cumplirá al pié de la letra la condicion del pasaje. – Pues, señor gobernador, replicó el preguntador, será necesario que el tal hombre se divida en partes, en mentirosa y verdadera; y si se divide, por fuerza ha de morir, y así, no se consigue cosa alguna de lo que la ley pide, y es necesidad expresa que se cumpla con ella. – Venid acá, señor buen hombre, respondió Sancho: este pasajero que decís, ó yo soy un porro, ó el tiene la misma razon para morir que para vivir y pasar la puente; porque, si la verdad le salva, la mentira le condena igualmente; y siendo esto así, como lo es, soy de parecer que digais á esos señores que á mí os enviaron, que pues están en un fil las razones de condenarle ó asolverle, que le dejen pasar libremente, pues siempre es alabado mas el hacer bien, que mal; y esto lo diera firmado de mi nombre, si supiera firmar: y yo, en este caso, no he hablado de mio, sino que se me vino á la memoria un precepto, entre otros muchos, que me dio mi amo Don Quijote la noche antes que viniese á ser gobernador desta ínsula, que fue, que cuando la justicia estuviese en duda, me decantase y acogiese á la misericordia; y ha querido Dios que ahora se me acordase, por venir en este caso como de molde. – Así es, respondió el mayordomo; y tengo para mí, que el mismo Licurgo, que dio leyes á los lacedemonios, no pudiera dar mejor sentencia que la que el gran Panza ha dado; y acábase con esto la audiencia desta mañana, y yo daré órden cómo el señor gobernador coma muy á su gusto.”

Neste episódio, assim como em vários outros, Sancho revela uma extraordinária habilidade no desempenho de suas funções de governante. Há, é evidente , uma forte influência dos ensinamentos que Don Quijote lhe transmite ao longo de sua jornada. Mas no entanto, o fato de Sancho conseguir pôr em prática os ensinamentos transmitidos pelo amo denotam o desenvolvimento de uma louvável sapiência e um acurado senso de justiça.

O Quijote já era um cinqüentenário no começo do livro. Apesar disso, sua vida parece desprovida de riqueza, haja vista que mora em sua casa com uma governanta e uma sobrinha, o que leva a crer que não teve maiores experiências pessoais.

À medida em que a narrativa vai se aproximando do final, vai começando a dar-se conta de seus delírios, vai recuperando a razão, inclusive não se deixando iludir quando provocado pelo duque e a duquesa que lhe deram hospedagem. Vivenciando novas experiências, vai dando-se conta de que a realidade difere em muito do mundo da ficção

Desse desenlace da trama, me permiti elaborar uma nova questão: Don Quijote realmente recupera a razão no final da estória ou apenas percebe que não lhe era permitido sonhar e, em razão disso, resolve deixar de fantasiar e conformar-se com a realidade monótona que lhe era imposta?

Um clássico só se torna clássico se provocar mais questionamentos do que revelações. Uma obra que se apresente ao leitor de forma pronta e acabada, sem permitir maiores divagações interpretativas, não é capaz de ser imortalizada. O prazer da leitura consiste na possibilidade de ir além do texto, de propiciar ao leitor exercer uma atividade criadora igual à desenvolvida pelo autor da obra. Uma obra torna-se imortal quando seduz o leitor de tal maneira que este sente vontade de lê-la e relê-la por diversas vezes; e a cada leitura ele descobre um novo universo que não havia percebido quando da leitura anterior.

El Ingenioso Hidalgo Don Quijote de La Mancha é uma dessas obras cuja imortalidade é irrefutável, o que resta evidente no momento em que comemoramos os 400 anos da publicação de sua primeira parte. Li o Quijote duas vezes, e a cada leitura construí essas duas figuras que descrevi nestas poucas linhas. Tenho certeza que na próxima leitura descobrirei um novo Quijote, certeza esta que sem dúvida me estimulará a relê-lo muitas outras vezes.

terça-feira, fevereiro 21, 2006

Deus, a humanidade e os chatos


Compartilho da opinião de Jack Miles, segundo a qual Deus criou a humanidade por sentir repentinamente que a solidão lhe era insuportável. O mais interessante nessa história é o fato de Deus ter criado o homem e a mulher a sua imagem e semelhança, ou seja, apesar de ter sentido que seria insuportável viver – ou simplesmente ser – por toda a eternidade convivendo apenas consigo próprio, Deus revelou possuir uma personalidade narcisista. Deus, apesar de sentir-se um ser extremamente chato para se conviver isolado na ilha deserta da eternidade, no momento em que cria novos seres semelhantes a Ele, manifesta ao mesmo tempo ter um elevado, quase patológico amor pela própria imagem.
Ainda não terminei o livro do Jack Miles ( Deus, uma biografia), mas após ler as primeiras cem páginas, na qual ele faz um exercício de interpretação literária do Gênesis na Bíblia hebraica, chego a conclusão de que já consigo resolver a uma das mais complexas questões já formuladas pela metafísica: Por que Deus criou a humanidade?
Nunca imaginei que essa pergunta tivesse uma resposta tão simples: Deus criou a humanidade porque precisava de companhia. Simples, tão simples como a resposta dada por todo crente aos que lhe questionam o porquê de existir um Deus: Deus tem que existir, porque toda causa tem um efeito, e o Universo é um efeito complexo demais para ter sido obra do simples acaso. Até mesmo a ciência tem referendado essa resposta: alguns biólogos têm afirmado que a complexidade da vida atesta ter sido ela projetada previamente por uma grande inteligência.
Nunca questionei a inteligência de Deus, até porque ela é óbvia. No entanto, confesso ter ficado assombrado ao dar-me conta de que só estamos aqui porque Deus, em meio ao nada absoluto, teve uma forte crise existencial. Confesso que também senti um pouco de dó de Deus ao imaginar como ele deve ter sofrido durante essa atroz crise existencial, sem que tivesse algum psicólogo ou psiquiatra para ajudá-lo a reencontrar-se consigo mesmo. Mas felizmente, Deus, demonstrando por que é o Senhor Deus, o Todo-Poderoso, o onipotente e o onisciente ou, simplesmente, o único Deus, tem um magnífico insight e descobre que a única saída para a sua aflição é encontrar-se consigo mesmo, ou seja, voltar-se para si mesmo e replicar-se.
Felizmente, para nós, Deus não era um suicida em potencial. Graças ao acaso Deus é imortal (Acaso foi o único termo profundamente filosófico que encontrei para fundamentar o fato de Deus ser imortal. Me perdoem pela limitação lingüístico-filósfica.). E graças a imortalidade de Deus não fomos abortados.
Não há dúvida, está lá, no Livro dos Livros: somos a imagem e semelhança de Deus. Somos o espelho de Deus e ele o nosso espelho.
Apesar de achar-se, num primeiro momento, um tremendo chato, Deus acaba apercebendo-se de que apesar de chato ele era um, digamos, um chato legal. Se somos a imagem e a semelhança dEle, com certeza Ele deve nos achar tremendamente chatos, mas como a si próprio, indubitavelmente Ele nos ama. Seguindo essa linha de raciocino, sinto-me autorizado, por mim e por Ele, a considerá-Lo chato também. Confesso que já fiz-Lhe uma série de admoestações: Pôxa, precisava ter criado o Bush, o Tony Blair, o zoológico humano, o Luxemburgo, o Garotinho, o FHC, o Serra e o Alckmin, o Olavo de Carvalho, a música sertaneja, o pagode, o PT, o PFL e o PSDB, o cinismo na política, o mensalão etc? Está certo, ter criado o Mozart, os Beatles e os Stones, o Vinícius, o Drummond, o Erico, o Saramago , o Ítalo Calvino, o Quintana e o Bob Dylan não foi nada chato.
Em suma, somos frutos da crise existencial de um Ser que num repente percebeu que seria muito mais chato viver isolado na sua chatice do que compartilhá-la conosco. Graças a Ele somos, e graças a Ele somos chatos. Graças a Ele, podemos achá-Lo chato, desde que não deixemos de amá-Lo. Podemos, inclusive, nos acharmos chatos uns ao outros, desde que não façamos dessa chatice motivo para nos aniquilarmos – Será que os padres, os aiatolás e os rabinos ainda não se deram conta disso. Talvez seja esse o motivo de Deus atormentá-los tanto. Mas essa história ainda não teve um desfecho, e os capítulos principais inclusive não constam da Bíblia.
Ame ao próximo como a ti mesmo, Ele disse – isso Ele disse quando fez-se carne, não podemos esquecer disso. Mas temos demonstrado que a chatice às vezes é insuportável, e esquecemo-nos dessa frase. Na verdade, acho que não nos esquecemos nunca dela. Na verdade, toda agressão ao outro é meio sado-masoquista. É muito chato perceber que aquele chato é semelhante a você. Temos que conviver com isso. A recíproca chatice é verdadeira: suportemo-la.
Por isso, quando um chato tornar-se insuportavelmente chato, faça como Deus ao reconhecer a própria chatice: olhe-se no espelho, mas não o quebre, ainda que do espelho surja a imagem de um tucano falando sobre ética na política.