terça-feira, março 28, 2006

Declarações:fragmentos


Amo tua beleza pálida, de aroma suave e sabor adocicado
Amo tua beleza pálida, eventualmente ruborizada, eternamente delicada
Misto de loucura e sensatez, avidez e enternecimento
De teus lábios guardo tua alma. De tua boca, incertezas

Das madrugadas dionisíacas conservo nossos momentos de ternura e devassidão
Cenário beatnik, pintado sobre colchões macios e corpos entrelaçados
Coltrane, Miles, teu coração batendo em meu peito .
Vinho.

A janela aberta, tua foto na parede, sem palavras, apenas línguas se acariciando.
Amo tua espontaneidade, temo tua fragilidade.
Lá fora, trincheiras são meticulosamente cavadas.
Sobre a cômoda, um relógio estragado.

Em matéria de sentimentos, palavras podem ser meros ardis, somente os gestos são sinceros.
Contemplo agora teu sono tranqüilo, com o calor de teu rosto a queimar-me a face.
Através da fumaça, vejo cometas rasgando o breu da noite.
Instantes líricos, como o teu delicado fechar de olhos.

domingo, março 26, 2006

Admirável Mundo Novo


No Admirável Mundo Novo de Aldous Huxley, o amor, em todas as suas modalidades, é considerado obsceno. A família foi abolida, sendo os termos pai e mãe considerados palavras ridículas. A prática do sexo - mais por ser um meio de satisfação de uma necessidade fisiológica do que como um meio de obtenção de prazer e, em nenhum hipótese, para fins de procriação, é incentivada nos seres humanos desde tenra idade: vemos crianças envolvidas em folguedos eróticos em vários trechos da história.

A ideologia que permeia o mundo social descrito no livro tem como característica principal a primazia da comunidade em relação ao indivíduo; o todo é mais importante que o um, e o um pode ser eliminado em benefício do todo, mesmo que mal nenhum pratique contra este.

A morte é banalizada: quando o “selvagem” debulha-se em lágrimas perante a agonia da mãe em seu leito hospitalar, deixa curiosas as crianças que recebiam aulas a respeito da insignificância da morte, além de sofrer forte reprimenda por parte da enfermeira que as educava.

Não há espaço para sentimento; a religião, pelo menos como a conhecemos hoje, foi varrida do “mundo civilizado”; a humanidade é apenas um meio para que seja atingido o fim supremo que é a garantia da ordem social; até mesmo a ciência que conduziu à civilização já não é mais valorizada como um bem – após atingir o apogeu do progresso, declinou para o perigeu da manutenção da ordem. Todos os valores foram suprimidos em prol de um totalitarismo frio e sufocante, baseado unicamente no materialismo.

Não mais se venera os ensinamentos de Cristo, nem de Maomé, nem de Moisés, nem de Buda, nem de Brahma, nem de Shiva, nem de Zoaroastro ou de quaisquer outras divindades....Ford é a Divindade Suprema.

No Admirável Mundo Novo, a felicidade está ao alcance de qualquer um que resolva ingerir um comprimido de soma. Ser feliz não é um direito, mas um dever imposto através do avanço da indústria farmacêutica.

A genética dividiu a sociedade em castas, realizando um rígida divisão do trabalho: cada ser humano que vai nascer é geneticamente programado para desempenhar o papel que a comunidade necessita que ele desempenhe.

Não há liberdade para amar, para adorar, para escolher, para questionar, nem mesmo para sofrer: os seres manipulados para serem geneticamente inferiores não possuem capacidade de pensamento que lhes permita dar-se conta da condição que lhes foi imposta.

Tudo é padronizado, minuciosamente estilizado, seguindo um pragmatismo inelutável.

A literatura não mais existe: o mais próximo da arte é o cinema sensível e a música sintética.

O livro foi escrito em 1932: Huxley era um visionário.

Auto-análise

Para o “cidadão comum”, que por inapetência pelo poder ou excesso de auto-crítica suficiente para demovê-lo de qualquer pretensão com relação a cargos políticos, é muito difícil digerir as notícias reveladas pela imprensa a respeito dos meandros da política profissional. Na verdade, esse gênero que denominei de cidadão comum poderia ser subdividido em duas espécies: a dos que se desiludiram completamente com seus representantes e resolveram simplesmente se acomodar em meio ao mar de esterco, preferindo apenas manifestar-se dizendo que têm horror de política, de que a política é assim mesmo e não há como mudá-la; e a dos que, apesar de igualmente desiludidos, ainda têm lá no fundo da alma um pouco de esperança de que as coisas vão melhorar algum dia, e ainda sentem-se responsáveis por essa melhora das coisas, ainda que ela só venha a se realizar algumas centenas de anos após a sua morte.
Em ano de eleições, é de vital importância que cada “cidadão comum” faça a sua auto-análise e escolha em qual dessas duas categorias pretenderá se enquadrar na hora de digitar seu voto.




De denúncias, denunciados, denunciantes e denuncismos


Deveria ser revolta, mas acho que já não é este o sentimento. O último espetáculo tragicômico que ainda ecoa dos picadeiros de Brasília – aquele cujos protagonistas são um caseiro, uma instituição financeira de capital público, um médico-economista, um notebook, tucanos, arapongas, e outros animais semelhantes – causa-me tristeza, mas já não me é capaz de causar revolta. Que o jogo é jogado de forma desleal por ambos os lados, isso é e sempre foi evidente – agora, não consigo compreender o porquê de apesar de ambos terem sofrido derrotas nos últimos tempos ainda insistirem em adotar fielmente as mesmas estratégias: não dava ao menos para dissimular com um pouco mais de mestria?


Munique

Após ver o filme entendi o porquê da polêmica:a imparcialidade, o “encimadomurismo” possui uma conotação pejorativa quando estão em jogo rivalidades políticas. Li que o Spielberg levou pau dos dois lados: os palestinos o acusaram de ignorar as causas legitimadoras do ataque contra a delegação olímpica israelense; já os israelenses o acusaram de qualificar como terrorista a sua legítima retaliação contra a ação do Setembro Negro.
Nenhuma das duas acusações se sustentam após uma análise descompromissada do filme. Nem mesmo podemos atribuir ao filme uma posição imparcial: Munique é um filme com forte conotação ideológica e, como tal, não se isenta de afirmar um posicionamento com relação ao conflito israelo-palestino.
Spielberg é judeu, mas não é sionista. Da maneira como foi apresentado, o filme poderia ter sido feito por um palestino, desde que não fosse simpatizante do Hammas, do Hezzbolah ou similares.A ideologia que permeia o filme é a única capaz de algum dia por fim ao histórico conflito entre israelenses e palestinos. Munique nos mostra que os dois lados têm as suas razões para estarem lutando, mas nenhuma delas é capaz de suplantar inequivocamente a outra; mas principalmente o que o filme nos revela é que a tolerância entre palestinos e israelenses, considerados estes enquanto povo, é algo possível, desde que haja vontade política para tal.

domingo, março 19, 2006

Don Quijote


Confesso que minha primeira leitura do Don Quijote teve um forte quê de heresia, uma vez que feita a partir de uma tradução para o português. Os amantes da obra sentir-se-ão fortemente motivados a lançarem-me na fogueira após esta confissão; ou no mínimo afirmarão que eu não consegui capturar na sua integridade a beleza estética da obra, pois por melhor que seja a tradução, esta diminui em muito a riqueza de conteúdo que possui o original. Tratando-se de El Ingenioso Hidalgo Don Quijote de la Mancha, essa perda é maior ainda – como me dei conta ao reler a obra em espanhol.

Quando me propus a escrever este texto, havia lido a obra uma vez e em português, como dito acima. Quando comecei a articular idéias a fim de começar a escrever, resolvi tomar vergonha na cara e reler a obra, desta vez direto do espanhol. Tenho certeza que esta segunda leitura foi mais rica do que a primeira, e me propiciou maior segurança para fazer uma abordagem livre da obra.

Considerado o melhor livro de todos os tempos, a obra de Cervantes causou-me profundo impacto: das leituras que fiz vislumbrei a presença de duas dicotomias: sanidade e insanidade;sabedoria formal, derivada dos livros e sabedoria prática, derivada das experiências da vida.

São essas dicotomias que me despertaram a atenção ao destrinchar a personalidade dos dois personagens principais da obra.

De um lado temos Don Quijote: leitor voraz, dotado de uma vasta cultura conquistada através dos livros. De outro temos Sancho Panza: um camponês de vida simples, analfabeto.

O Quijote, embora culto, com um forte arcabouço de informações retirada dos livros, acaba se deixando levar pelas estórias que lia, mostrando-se incapaz de discernir entre realidade e imaginação.

Sancho, por outro lado, por saber-se ignorante, sem estudo, admira a inteligência e a cultura do amo; apesar dessa admiração, e de achar-se pequeno ante a sabedoria do Quijote, percebe logo a insanidade deste, não compartilhando de suas visões delirantes.

Após ler tantos livros de cavalaria, o Quijote chegou a conclusão de que o que o mundo mais precisava era de cavaleiros-andantes, motivo pelo qual resolve lançar-se em busca de aventuras e de fama. Já nas primeiras aventuras, quando chega a uma simples venda e imagina estar chegando em um magnífico castelo, quando encontra duas putas e as trata como se fossem donzelas e, sobretudo, quando atira-se vorazmente com sua lança contra os moinhos-de-vento, que pensava serem gigantes, nos parece evidente a sua insanidade. Mas se louco era, dava-se conta de sua insanidade, embora não a admitindo, como ocorre no episódio dos moinhos, no qual após de forma tortuosa dar-se conta de que estes realmente eram moinhos-de-vento e não gigantes, afirma a Sancho que fora o feiticeiro Freston que transformara os gigantes em moinhos, com a finalidade de humilhá-lo. O mesmo acontece quando avista a sua dulcíssima Dulcinéia Del Toboso: quando percebe que esta não é uma linda donzela, mas uma gorda e feia camponesa, atribui a fealdade desta a um encantamento perpretado por Freston, a fim de afastá-lo de sua amada.

No prólogo do livro, Cervantes manifesta como um dos propósitos da obra realizar uma sátira dos romances de cavalaria, demonstrando o poder de alheamento que a leitura destes produzia.

Cervantes nos diz que a loucura do Quijote seria conseqüência de sua fixação pelos romances de cavalaria - leitor voraz desse gênero literário, acaba sendo contagiado por ele, fazendo-se cavaleiro-andante.

Como contraponto ao herói maluco, temos Sancho Panza, o fiel escudeiro que tenta infrutiferamente trazer o amo de volta à realidade.





Apesar de a priori Sancho ser uma espécie de “lanterna” do Quijote, na medida em que não se deixa contagiar pelas suas visões delirantes, ao mesmo tempo se deixa iludir pela promessa deste de que após vencer terríveis batalhas seria recompensado com uma ilha, da qual tornar-se-ia governador.

Essa aparente contradição propicia a formulação de duas questões: Seria o Quijote realmente louco ou seria ele apenas um indivíduo cansado de sua vida monótona, em virtude da qual se deixa influenciar pelas estórias cheias de aventura e romance dos livros que lia? Se Sancho Panza dava-se conta da loucura do seu amo, por que se deixava levar pela promessa de que seria recompensado com o governo de uma ilha e que enriqueceria através disso?

Quanto à primeira questão, a interpretação que fiz me leva a responder que o Quijote não era louco, isto é, não era mentalmente enfermo. A loucura do Quijote, na minha opinião, é a loucura que contagia os sonhadores, aquele sentimento de inconformidade com os aspectos inaceitáveis da realidade. A loucura do Quijote é a vontade de transcender ao real em busca da realização plena da sua individualidade; é o inconformar-se com as coisas e mandar às favas os convencionalismos e as certezas. A História nos deu uma infinidade de Quijotes: Quando em 1959 uns poucos revolucionários cubanos desembarcaram na Sierra Maestra a fim de derrubar o governo de Fulgêncio Batista, não agiram eles como Don Quijotes? E Che Guevara tentando tomar o poder na Bolívia, com uma tropa de sete homens, também não se assemelhava ao Quijote? Hugo Chavez não seria um Don Quijote venezuelano ? E João Pedro Stédile, sem entrar no mérito de suas atividades, também não se assemelha ao Quijote quando afirma que a luta do MST agora é contra o lucro e o capital?

Um dos Quijotes que construí após a leitura da obra é este: um inconformado, um indivíduo preocupado apenas com o sonhar, sem preocupar-se com os limites que a realidade impõe ao seu sonho.

Mas também me permiti fazer uma outra interpretação, respondendo à questão de uma outra maneira, considerando sobretudo o propósito de Cervantes em satirizar os romances de cavalaria. Sob esse outro prisma, a loucura do Quijote pode ser real , apresentando-se como um produto do poder alienante daquele gênero literário – Após ficar tanto tempo enfurnado em suas leituras, a sua vida se confunde com as ficções que lia; esquece-se da realidade, ou deliberadamente opta por negligenciá-la e passar a viver unicamente a vida que os livros lhe revelam.

Essa segunda interpretação é bastante atual em tempos em que os padrões sociais são autoritariamente ditados pela mídia – mídia eletrônica, sobretudo. Sob esse prisma, a loucura do Quijote era manifesta, consubstanciada na sua incapacidade de adaptar-se à sociedade, em razão da qual constrói um mundo imaginário, cujo cenário é construído a partir dos romances-de-cavalaria.

Mas a riqueza da obra me levou a conferir relevância a um outro aspecto bastante marcante na leitura que fiz: as profundas transformações por que vão passando os dois personagens ao longo da estória.

À medida que se desenrola a narrativa, sobretudo a partir da segunda parte, o iletrado e inculto Sancho Panza vai demonstrando uma sabedoria extraordinária para um simples camponês. Extraí do Capítulo LI um trecho em que, já na condição de governador da Ínsula Barataria – que na realidade de ilha não tinha nada – Sancho é chamado a solucionar um problema jurídico que havia surgido na comunidade:

“Señor: un caudaloso rio dividia dos términos de un mismo señorio ( y esté vuesa merced atento, porque el caso es de importancia, y algo dificultoso); digo, pues, que sobre este rio estaba una puente, y al cabo della una horca, y una como casa de audiencia, en la cual, de ordinario habia cuatro jueces, que juzgaban la ley que puso el dueño del rio, de la puente y del señorío, que era en esta forma: Si alguno pasare por esta puente y del señorío, de una parte á otra, ha de jurar primero adónde, y á qué va; y si jurare verdad, déjenle pasare; y si dijere mentira, muera por ello ahorcado, en la horca que allí se muestra, sin remision alguna. – Sabida esta ley, y la rigurosa condicion della, pasaban muchos; y luego, en lo que juraban, se echaba de ver que decian verdad, y los jueces los dejaban pasar libremente. Sucedió pues, que, tomando juramento á un hombre, juró y dijo, que para el juramento que hacia, que iba á morir en aquella horca que allí estaba, y no á otra cosa. Repararon los jueces en el juramento, y dijeron: Si á este hombre le dejamos pasar libremente, mintió en su juramento, y, conforme á la ley, debe morir; y, si le ahorcamos, él juro que iba á morir en aquella horca, y, habiendo jurado verdad, por la misma ley debe ser libre. – Pídese á vuesa merced, señor gobernador, qué harán los jueces de tal hombre; que aun, hasta ahora, están dudosos y suspensos: y habiendo tenido noticia del agudo y elevado entendimiento de vuesa merced, me enviaron á mí á que suplicase á vuesa merced, de su parte, diese su parecer en tal intricado y dudoso caso.”Á lo que respondió Sancho:”Por cierto, que esos señores jueces que a mí os envian, lo pudieron haber excusado, porque yo soy un hombre que tengo mas de mostrenco que de agudo; pero, con todo eso, repetidme otra vez el negocio, de modo que yo lo entienda; quizá podria ser que diese en el hito.” Volvió otra y otra vez el preguntante á referir lo que primero habia dicho, y Sancho dijo: “Á mi parecer, este negocio en dos paletas le declararé yo; y es así: el tal hombre ¿ jura que va á morir en la horca, y si muere en ella juró verdad, y por la ley puesta merece ser libre, y que pase la puente, y si no le ahorcan juró mentira, y por la misma ley merece que le ahorquen? – Así es como el señor gobernador dice, dijo el mensajero; y, cuanto á la entereza y entendimiento del caso, no hay mas qué pedir ni qué dudar. – Digo yo pues, ahora, replicó Sancho, que deste hombre, aquella parte que juró verdad la dejen pasar, y la que dijo mentira la ahorquen, y desta manera se cumplirá al pié de la letra la condicion del pasaje. – Pues, señor gobernador, replicó el preguntador, será necesario que el tal hombre se divida en partes, en mentirosa y verdadera; y si se divide, por fuerza ha de morir, y así, no se consigue cosa alguna de lo que la ley pide, y es necesidad expresa que se cumpla con ella. – Venid acá, señor buen hombre, respondió Sancho: este pasajero que decís, ó yo soy un porro, ó el tiene la misma razon para morir que para vivir y pasar la puente; porque, si la verdad le salva, la mentira le condena igualmente; y siendo esto así, como lo es, soy de parecer que digais á esos señores que á mí os enviaron, que pues están en un fil las razones de condenarle ó asolverle, que le dejen pasar libremente, pues siempre es alabado mas el hacer bien, que mal; y esto lo diera firmado de mi nombre, si supiera firmar: y yo, en este caso, no he hablado de mio, sino que se me vino á la memoria un precepto, entre otros muchos, que me dio mi amo Don Quijote la noche antes que viniese á ser gobernador desta ínsula, que fue, que cuando la justicia estuviese en duda, me decantase y acogiese á la misericordia; y ha querido Dios que ahora se me acordase, por venir en este caso como de molde. – Así es, respondió el mayordomo; y tengo para mí, que el mismo Licurgo, que dio leyes á los lacedemonios, no pudiera dar mejor sentencia que la que el gran Panza ha dado; y acábase con esto la audiencia desta mañana, y yo daré órden cómo el señor gobernador coma muy á su gusto.”

Neste episódio, assim como em vários outros, Sancho revela uma extraordinária habilidade no desempenho de suas funções de governante. Há, é evidente , uma forte influência dos ensinamentos que Don Quijote lhe transmite ao longo de sua jornada. Mas no entanto, o fato de Sancho conseguir pôr em prática os ensinamentos transmitidos pelo amo denotam o desenvolvimento de uma louvável sapiência e um acurado senso de justiça.

O Quijote já era um cinqüentenário no começo do livro. Apesar disso, sua vida parece desprovida de riqueza, haja vista que mora em sua casa com uma governanta e uma sobrinha, o que leva a crer que não teve maiores experiências pessoais.

À medida em que a narrativa vai se aproximando do final, vai começando a dar-se conta de seus delírios, vai recuperando a razão, inclusive não se deixando iludir quando provocado pelo duque e a duquesa que lhe deram hospedagem. Vivenciando novas experiências, vai dando-se conta de que a realidade difere em muito do mundo da ficção

Desse desenlace da trama, me permiti elaborar uma nova questão: Don Quijote realmente recupera a razão no final da estória ou apenas percebe que não lhe era permitido sonhar e, em razão disso, resolve deixar de fantasiar e conformar-se com a realidade monótona que lhe era imposta?

Um clássico só se torna clássico se provocar mais questionamentos do que revelações. Uma obra que se apresente ao leitor de forma pronta e acabada, sem permitir maiores divagações interpretativas, não é capaz de ser imortalizada. O prazer da leitura consiste na possibilidade de ir além do texto, de propiciar ao leitor exercer uma atividade criadora igual à desenvolvida pelo autor da obra. Uma obra torna-se imortal quando seduz o leitor de tal maneira que este sente vontade de lê-la e relê-la por diversas vezes; e a cada leitura ele descobre um novo universo que não havia percebido quando da leitura anterior.

El Ingenioso Hidalgo Don Quijote de La Mancha é uma dessas obras cuja imortalidade é irrefutável, o que resta evidente no momento em que comemoramos os 400 anos da publicação de sua primeira parte. Li o Quijote duas vezes, e a cada leitura construí essas duas figuras que descrevi nestas poucas linhas. Tenho certeza que na próxima leitura descobrirei um novo Quijote, certeza esta que sem dúvida me estimulará a relê-lo muitas outras vezes.

terça-feira, fevereiro 21, 2006

Deus, a humanidade e os chatos


Compartilho da opinião de Jack Miles, segundo a qual Deus criou a humanidade por sentir repentinamente que a solidão lhe era insuportável. O mais interessante nessa história é o fato de Deus ter criado o homem e a mulher a sua imagem e semelhança, ou seja, apesar de ter sentido que seria insuportável viver – ou simplesmente ser – por toda a eternidade convivendo apenas consigo próprio, Deus revelou possuir uma personalidade narcisista. Deus, apesar de sentir-se um ser extremamente chato para se conviver isolado na ilha deserta da eternidade, no momento em que cria novos seres semelhantes a Ele, manifesta ao mesmo tempo ter um elevado, quase patológico amor pela própria imagem.
Ainda não terminei o livro do Jack Miles ( Deus, uma biografia), mas após ler as primeiras cem páginas, na qual ele faz um exercício de interpretação literária do Gênesis na Bíblia hebraica, chego a conclusão de que já consigo resolver a uma das mais complexas questões já formuladas pela metafísica: Por que Deus criou a humanidade?
Nunca imaginei que essa pergunta tivesse uma resposta tão simples: Deus criou a humanidade porque precisava de companhia. Simples, tão simples como a resposta dada por todo crente aos que lhe questionam o porquê de existir um Deus: Deus tem que existir, porque toda causa tem um efeito, e o Universo é um efeito complexo demais para ter sido obra do simples acaso. Até mesmo a ciência tem referendado essa resposta: alguns biólogos têm afirmado que a complexidade da vida atesta ter sido ela projetada previamente por uma grande inteligência.
Nunca questionei a inteligência de Deus, até porque ela é óbvia. No entanto, confesso ter ficado assombrado ao dar-me conta de que só estamos aqui porque Deus, em meio ao nada absoluto, teve uma forte crise existencial. Confesso que também senti um pouco de dó de Deus ao imaginar como ele deve ter sofrido durante essa atroz crise existencial, sem que tivesse algum psicólogo ou psiquiatra para ajudá-lo a reencontrar-se consigo mesmo. Mas felizmente, Deus, demonstrando por que é o Senhor Deus, o Todo-Poderoso, o onipotente e o onisciente ou, simplesmente, o único Deus, tem um magnífico insight e descobre que a única saída para a sua aflição é encontrar-se consigo mesmo, ou seja, voltar-se para si mesmo e replicar-se.
Felizmente, para nós, Deus não era um suicida em potencial. Graças ao acaso Deus é imortal (Acaso foi o único termo profundamente filosófico que encontrei para fundamentar o fato de Deus ser imortal. Me perdoem pela limitação lingüístico-filósfica.). E graças a imortalidade de Deus não fomos abortados.
Não há dúvida, está lá, no Livro dos Livros: somos a imagem e semelhança de Deus. Somos o espelho de Deus e ele o nosso espelho.
Apesar de achar-se, num primeiro momento, um tremendo chato, Deus acaba apercebendo-se de que apesar de chato ele era um, digamos, um chato legal. Se somos a imagem e a semelhança dEle, com certeza Ele deve nos achar tremendamente chatos, mas como a si próprio, indubitavelmente Ele nos ama. Seguindo essa linha de raciocino, sinto-me autorizado, por mim e por Ele, a considerá-Lo chato também. Confesso que já fiz-Lhe uma série de admoestações: Pôxa, precisava ter criado o Bush, o Tony Blair, o zoológico humano, o Luxemburgo, o Garotinho, o FHC, o Serra e o Alckmin, o Olavo de Carvalho, a música sertaneja, o pagode, o PT, o PFL e o PSDB, o cinismo na política, o mensalão etc? Está certo, ter criado o Mozart, os Beatles e os Stones, o Vinícius, o Drummond, o Erico, o Saramago , o Ítalo Calvino, o Quintana e o Bob Dylan não foi nada chato.
Em suma, somos frutos da crise existencial de um Ser que num repente percebeu que seria muito mais chato viver isolado na sua chatice do que compartilhá-la conosco. Graças a Ele somos, e graças a Ele somos chatos. Graças a Ele, podemos achá-Lo chato, desde que não deixemos de amá-Lo. Podemos, inclusive, nos acharmos chatos uns ao outros, desde que não façamos dessa chatice motivo para nos aniquilarmos – Será que os padres, os aiatolás e os rabinos ainda não se deram conta disso. Talvez seja esse o motivo de Deus atormentá-los tanto. Mas essa história ainda não teve um desfecho, e os capítulos principais inclusive não constam da Bíblia.
Ame ao próximo como a ti mesmo, Ele disse – isso Ele disse quando fez-se carne, não podemos esquecer disso. Mas temos demonstrado que a chatice às vezes é insuportável, e esquecemo-nos dessa frase. Na verdade, acho que não nos esquecemos nunca dela. Na verdade, toda agressão ao outro é meio sado-masoquista. É muito chato perceber que aquele chato é semelhante a você. Temos que conviver com isso. A recíproca chatice é verdadeira: suportemo-la.
Por isso, quando um chato tornar-se insuportavelmente chato, faça como Deus ao reconhecer a própria chatice: olhe-se no espelho, mas não o quebre, ainda que do espelho surja a imagem de um tucano falando sobre ética na política.

sábado, dezembro 10, 2005

Contraponto



Acabei de ler Contraponto, de Aldous Huxley. O que me causou maior encantamento na obra, em primeiro lugar, foi a técnica da narrativa. Está certo, os que me conhecem já sabem, e os que não conhecem saberão agora que este que aqui escreve não possui nenhum conhecimento mais do que superficial a respeito de técnicas de narrativa. Já havia lido a respeito da obra, obviamente, até porque este não é o primeiro livro do Huxley que me chega em mãos. Mas confesso ser um energúmeno em matéria de teoria literária, apesar de leitor voraz. Até então não tinha bem certeza a respeito do que vinha a ser a tal técnica do contraponto. O que sabia era o que já havia lido em depoimentos, inclusive do Erico Verissimo, que por sinal foi o primeiro a traduzir o Point Counter Point para o português, e também adotou essa técnica no livro Caminhos Cruzados, o qual ainda não tive o prazer de ler.

Bem, mas o que me encantou na tal técnica do contraponto? Ou melhor, o que me levou a ter certeza de que após ler o livro realmente entendi o que vem a ser o contraponto? Para responder a essa pergunta, nada melhor do que brindar-lhes com uma sintética definição.

Imagine uma orquestra sinfônica executando uma peça clássica. Mesmo que você não tenha uma audição muito acurada, isto é, mesmo que você, assim como eu, não possua “ouvido de músico”, tenho certeza de que facilmente conseguirá perceber que os diversos instrumentos parecem percorrer caminhos diversos. Está bem, talvez o exemplo seja pouco esclarecedor para quem não goste de música clássica. Imaginemos...imaginemos não. Suponho que se você não gosta de música clássica, ao menos de rock há de gostar. Ora, não pode um ser humano repudiar concomitantemente Mozart e Beatles! Fiquemos com os Beatles. Escolhamos uma música...deixe-me ver: She Came in Through the Bathroom Window. Bem, quero que você preste atenção em como guitarra, baixo, bateria e vocal percorrem rumos diferentes, cada um numa direção. Mas fica evidente que embora percorram rumos diferentes, o percurso de todos não é aleatório, mas sim planejado. São linhas que se estendem no plano em direção a um ponto específico. Se não houvesse esse ponto, teríamos cacofonia e não harmonia musical.

Em Contraponto, Huxley faz a mesma coisa. Os capítulos e os trechos destes são construídos de uma maneira que à primeira vista parecem estar nos levando a rumos completamente desconexos dentro do espaço da narrativa. Mas, na verdade, o que ocorre é que as temáticas de cada trecho estão inter-relacionados. O capítulo em que isto me apareceu de forma mais reveladora foi o XXXIV. Transcrevi um trecho do último parágrafo deste e do primeiro parágrafo do XXXV:


“(...)Ao primeiro contato o seio redondo estremeceu; ele tinha seus terrores particulares, dentro da felicidade geral de Beatrice, dentro de sua sensação de segurança. Mas a mão espírita repetiu a carícia – mais outra e outra vez – pacientemente, suavemente, sem alarme, até que o seio, tranqüilizado e por fim ansioso, desejou a sua volta; e todo o corpo de beatrice fremiu, vivo, sob a irradiação dos desejos do seio. E na escuridão as eternidades se prolongaram.

CAPÍTULO XXXV

No dia seguinte, em lugar de gemer a cada retorno da dor, o menino começou a gritar – a soltar gritos após gritos, cada vez mais agudos, repetidos com uma regularidade quase digna dum mecanismo de relógio, durante um tempo que pareceu a Elinor uma eternidade.(...)”


Capítulo XXXIV: prazer. Capítulo XXXV: dor . Em comum: sensação de eternidade; as sensações tão intensas que parecem estender-se eternamente. Ficou claro?

Além do estilo de narrativa, Contraponto é genial quanto ao enredo. A estória se passa no período do entreguerras, fim dos anos vinte. As personagens ou são membros da burguesia inglesa ou freqüentam o seio desta. Até aqui percebemos a influência da linguagem musical na narrativa: por mais heterogêneos que possam parecer os personagens em termos de convicções ideológicas ou estilos de vida, percebemos uma evidente confluência entre os contrários. O livro, assim como A Montanha Mágica, de Thomas Mann, foi um alerta para a iminência de uma segunda guerra mundial. A total ausência de valores éticos, a derrocada da moral cristã, os primeiros efeitos da agressão desenfreada ao meio ambiente, a crise das ideologias políticas, os extremismos pró-massas ou pró-individualismo...em todos esses aspectos o livro é profético.

Quase cem anos depois o livro ainda é assustadoramente atual. Aconselho Contraponto a todos que querem conhecer um pouco mais da alma humana.

domingo, novembro 27, 2005

Ontem à tarde no Recife



Poderia ter sido apenas mais uma partida da medíocre segunda divisão do futebol brasileiro.

O resultado do jogo entre Grêmio e Náutico ontem à tarde no Estádio dos Aflitos poderia ter representado tão-somente a definição do campeão brasileiro da Série B em 2005. Título este sem maior significado, sem grande peso para a história de um clube que guarda em sua sala de troféus, dentre outras conquistas, a de campeão mundial.

Poderia, mas não foi.

O que aconteceu ontem à tarde na cidade do Recife coloca o futebol definitivamente como fenômeno associado à metafísica. A vitória do
Grêmio ontem à tarde na cidade do Recife entrou para a história do esporte mais popular do planeta e deverá ser tópico destacado em qualquer livro que pretenda demonstrar o que leva milhões de pessoas em todo o mundo a serem apaixonadas por futebol.

Não foi um simples jogo de futebol. As circunstâncias que o envolveram reservaram-lhe uma conotação de teatro do absurdo, de poema épico. Nunca houve e dificilmente haverá uma partida como aquela.

Num ano em que o futebol nacional teve ares de ópera bufa, assolado por escândalos de corrupção e erros de arbitragem, somente uma conquista do Internacional na Série A, face às circunstâncias envolvidas , poderá igualar, ou ao menos aproximar-se da conquista alcançada pelo Grêmio ontem à tarde.

A vitória do Grêmio ontem à tarde no Estádio dos Aflitos feriu a lógica, afrontou acintosamente a Lei de Murphy e foi capaz de emocionar até o mais fanático colorado.

Que outro esporte seria capaz de reproduzir algo similar ao que o futebol nos proporcionou ontem à tarde? Quem assistiu ao jogo de ontem à tarde, por maior ojeriza que tenha pelo esporte, nunca mais poderá tecer qualquer comentário depreciativo ao maior de todos os esportes.

O Grêmio provou ontem à tarde que o futebol não é apenas um jogo, um esporte sucintamente definido como a disputa entre vinte e dois homens (ou mulheres) cujo objetivo é colocar uma esfera de couro dentro de um retângulo. O Grêmio provou ontem à tarde que o futebol é mais do que um esporte. O Grêmio nos explicou ontem à tarde porque o mais circunspecto, o mais dócil ser humano é capaz de subitamente transbordar em raiva, euforia ou lágrimas em razão de uma partida de futebol.

O futebol não é apenas futebol. O futebol não é apenas um esporte. O futebol não é apenas arte ou competição.

O Grêmio provou ontem à tarde no Recife que o futebol é esporte, é arte, é ciência, é competição. O Grêmio provou ontem à tarde que o futebol é a vida diante do espelho.

Que me perdoem os corintianos, os flamenguistas, os são-paulinos, os palmeirenses mas, que me perdoem, principalmente, os colorados: que outro clube pode propiciar aos amantes do futebol o que nos propiciou o Grêmio ontem à tarde na cidade do Recife? Que outro time seria capaz de sofrer um pênalti a dez minutos do final do jogo, ser reduzido a seis jogadores na linha e um goleiro, não deixar o adversário converter a penalidade e, ainda por cima, marcar um gol e vencer a partida diante de um estádio lotado por milhares de fanáticos e eufóricos torcedores adversários?

O que o Grêmio fez ontem à tarde no Recife não tem como resultado o simples retorno à elite do futebol brasileiro. A conquista do Grêmio ontem à tarde há de ser louvada por todos os amantes do futebol. O Grêmio, o místico imortal tricolor gaúcho provou ontem à tarde no Recife, mais uma vez, que para ele o impossível não existe.

Ontem à tarde no Recife restou provado qual o significado de ser gremista. Que me perdoem os colorados, mais uma vez.


domingo, outubro 30, 2005

Tributo



Uma série de fatores contribuíram para minha paixão pelos livros. A biblioteca iniciada por meu avô paterno a espalhar-se por vários cômodos de minha casa em Jaguarão - e, por força das circunstâncias e das contingências, reduzida drasticamente quando da mudança da família para Pelotas-, sempre teve para mim valor inestimável. Desde tenra idade, mesmo quando ainda não podia mergulhar no mundo da leitura, os livros produziam-me forte encantamento, aguçando-me a curiosidade, cuja saciedade ainda não me era permitida em função do analfabetismo. Quando as letras deixaram de ser para mim um mistério, os mistérios dos livros passaram a ser para mim um deleite. Júlio Verne, Monteiro Lobato, Agatha Christie, Isaac Azimov, Carl Sagan......junto com meu pai, foram eles que me despertaram o amor pelos livros. No entanto, nesse período, tal amor ainda era marcado pela infidelidade e, até, pela promiscuidade. Os livros, nessa época, eram para mim uma paixão, assim como também o eram o futebol, a bicicleta, os filmes de horror, os brinquedos e a televisão. Tive uma “infância normal”, e dentro da normalidade de uma infância de cidade pequena, os livros eram para mim apenas mais um atrativo. Minha memória é péssima, mas creio que tinha uns doze anos de idade quando numa noite fria, preenchida pelo silêncio melancólico das ruas da pequena cidade fronteiriça, enquanto todos em casa já dormiam, abri preguiçosamente um certo livro do qual já ouvira falar - e muito - e me pus despretensiosa e vagarosamente a ler:

“Era uma noite fria de lua cheia. As estrelas cintilavam sobre a cidade de Santa Fé, que de tão quieta e deserta parecia um cemitério abandonado. Era tanto o silêncio e tão leve o ar que se alguém aguçasse o ouvido talvez pudesse até escutar o sereno caindo na solidão”........


O Tempo e o Vento é a obra literária que mais me marcou até hoje. Não quero com isso transparecer a opinião de que se trata do melhor livro, do mais bem escrito, ou do que me causou maior deleite estético. Não é o que quero dizer ao manifestar o que esse livro significou para mim. A importância de O Tempo e o Vento, assim como de Incidente em Antares, Noite, Olhai os Lírios do Campo e O Prisioneiro, é que graças a eles passei a ter na literatura, ao lado da música, a minha principal fonte intelectual de transcendência. Minha história como leitor se resume a fase pré e pós Erico Verissimo. Antes do Erico, os livros eram para mim uma curiosidade; a partir dele, a literatura converteu-se na religião que nunca tive.

Acordei hoje e lembrei-me que ainda não havia escrito nada para homenagear os 100 anos do Erico. Que estas reminiscências sirvam de tributo ao mais importante escritor da vida deste leitor inveterado.

O Espelho

O Espelho


Ao gritar do despertador, Pedro saltou instintivamente de sua cama aconchegante. Para ele todas as manhãs eram iguais, exceto às quartas-feiras.

Ah!, as manhãs de quarta-feira. Nada se igualava a elas. O enternecimento provocado pelo dar-se conta de que faltavam apenas dois dias para o final de semana. A alegria do relembrar as façanhas do final de semana anterior. Tudo é felicidade nas manhãs de quarta-feira.

Pedro calçou as alpargatas e dirigiu-se ao banheiro. Abriu a torneira e, com as mãos em forma de concha, apanhou um pouco d´água para lavar o rosto. No desgrudar das pálpebras abriu os olhos. E no pestanejar nervoso do despertar induzido, um grito estarrecedor ecoou pelo pequeno apartamento.

Pedro olhara-se no espelho, e no espelho não enxergara Pedro. Pedro e o espelho. O espelho límpido, cristalino, a refletir a parede amarelada dos azulejos sujos. Espanto. Pedro tornou a levar as mãos ao jato-contínuo. Apanhou mais água e, nervoso, jogou-a novamente no rosto. Afoito, abriu os olhos e pestanejou; esfregou-os desesperadamente, mas o espelho continuava igual, com a mesma empáfia a refletir a parede imunda, negando-se a enxergá-lo.

- Mas que merda é essa! – exclamou, irritadiço.

Olhou para os pés, para as pernas, apalpou o membro adormecido e a barriga flácida. Subiu para o tórax e com raiva esbofeteou-se a face. Sentiu a dor da bochecha ferida, dos dentes entrechocados. Esbofeteou de novo, para ter certeza de que estava acordado. Estava.

Respirou fundo e rumou para o chuveiro. Ajustou a temperatura e sentiu a água gelada a queimar-lhe as costas. Gritou, soqueou a parede e agüentou firme, com expressão de raiva. Deixou a água escorrer e acumular-se no piso. Olhou para a poça d´água e , manifestando um alívio profundo, viu seu reflexo destorcido. Entusiasmado pulou para frente da pia, mirou-se no espelho e ....a mesma parede amarelada. Beliscou-se, chutou o armário, berrou com a dor do dedo quebrado.

- Mas que merda é essa!

Com o coração em disparada, saiu do banheiro. Secou-se na toalha, percebeu os cabelos desalinhados. Colocou as cuecas. Vestiu calça e camisa. Calçou os sapatos. O dedo latejando, o cérebro fervilhando. Acomodou o relógio de pulso. Respirou fundo, juntou os papéis e jogou-os na pasta. Dirigiu-se para a cozinha. Aqueceu o leite; despejou duas colheres de café; chacoalhou o copo; despejou açúcar; chacoalhou de novo e levou o líquido à boca. Gosto amargo. Largou o copo sobre a mesa e voltou para o banheiro.

Entrou lentamente, trancou a porta e largou a pasta no chão. Respirou fundo e deu um grito. Amarrou a cara, estalou os olhos e mirou desafiadoramente o impávido pedaço de vidro quadrangular.

- Seu filho duma puta! – exclamou, hilariamente. Hilário, gargalhou. Gargalhou durante dois minutos, contorceu-se de tanto gargalhar. Gargalhou histericamente, como nunca gargalhara na vida. Gargalhou, gargalhou, até sentir a barriga doer de tanta convulsão histérica. E então amarrou a cara novamente. Lentamente pegou o pente no armarinho e penteou os cabelos desalinhados. Penteou-se, com o peito estufado, tentando demonstrar superioridade. Com os olhos cravados no espelho, penteou-se por vários minutos, com ar desafiador, como o toureiro diante do touro na arena lotada. Largou o pente e pegou a escova de dentes. Abaixou a cabeça, colocou lentamente o creme dental, espiando o inimigo de soslaio. Levou a escova à boca e escovou. Escovou durante uns dois minutos, esboçando um sorriso forçado, tentando demonstrar indiferença. Escovou, escovou, bochechou, cuspiu, escovou novamente. O ritual higiênico perdurou por uns vinte minutos. E durante aqueles vinte minutos o espelho manteve o seu desdém. Para o espelho, nada existia à sua frente. Para o espelho, somente a parede imunda importava.

Com o hálito refrescado, Pedro enxaguou a escova e depositou-a novamente na caneca de vidro. Sem titubear, abriu a porta do armarinho e guardou o creme dental. Lentamente, assoviando uma música irreconhecível, tornou a fechar a porta. Estático, voltou a mirar o objeto desdenhoso. Percebeu que havia borrifado algumas partículas de água e creme dental. Delicadamente levou a mão em direção ao espelho, deslizando-a suavemente até desfazer as nódoas de sujeira. Sentiu a superfície aquecida, uma quentura estranha para um objeto frio numa manhã gelada como aquela. Mas de estranhezas aquela manhã já estava além da conta, e não seria a quentura do espelho a razão dos acontecimentos que se seguiram.

Pedro, Pedro e o espelho. O espelho a ignorar Pedro, Pedro a desconhecer Pedro. No relógio já se faziam oito e meia da manhã. Na repartição a jornada de trabalho já se iniciara, no finge-que-faz-não-faz rotineiro, no diz-que-sabe-não-sabe de sempre. E Pedro ali, a contemplar o espelho que, ignominioso, recusava-se a refletir.

A irritação que se ausentara voltou num rompante, quando Pedro percebeu que as horas corriam soltas e o relógio já anunciava nove horas.

– Nove horas, desgraçado! – exclamou numa fúria até então sublimada.

A mente fervendo, a face ruborizada, os dentes cravados no lábio inferior, o gosto de sangue na boca seca, o punho cerrado, os olhos fechados e..... Num soco certeiro o espelho desfez-se em pedaços. Com a cabeça baixa, Pedro regozijou. Nos miles de pedaços a que se resumira, o objeto voltou a refletir. Nos fragmentos de vidro, Pedro, aliviado, voltou a contemplar a sua face.- Ah, as inesquecíveis manhãs de quarta-feira! – exclamou o legista.