quinta-feira, maio 22, 2008

Triste aniversário

Comemora-se este ano os 60 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos. No entanto, a crise alimentar, verdadeiro genocídio que se desenrola descontroladamente nos países pobres, sobretudo no continente africano, entristece aquele que deveria ser um ano de festa. A FAO (Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação) divulgou relatório nesta quinta-feira no qual aponta que o preço dos alimentos devem continuar altos, sem perspectiva de redução.

A maior crise alimentar que assolou o planeta se deu nos anos 70, quando milhões de pessoas morreram em decorrência da falta de alimentação.

Na primeira metade da década de 70, o filme Soylent Green, estrelado por Charlton Heston, mostrava um planeta devastado por gigantesca crise alimentar, consequência da superpopulação e da degradação ambiental.

O cenário do filme não difere muito daquele em que nos encontramos hoje, e talvez seja o mesmo que deixaremos como legado às gerações futuras. Para evitar a catástrofe, o imediatismo estúpido do crescer a qualquer custo tem que ser substituído pela implementação de efetivas estratégias de desenvolvimento sustentável.

Se nada for feito, a vida mais uma vez imitará a arte.

domingo, fevereiro 24, 2008

Oscar

Assisti aos cinco indicados a melhor filme. Torço, sem grande entusiasmo, pelo azarão Conduta de Risco. O melhor filme do ano não está na disputa. Na verdade, os três melhores filmes de 2007 não entraram na lista de indicados. Na minha humilde opinião, O Gangster Americano foi o melhor filme de 2007. Depois dele, No Vale das Sombras e Zodíaco mereceriam ganhar o prêmio máximo. Gostei de Onde Os Fracos Não Têm Vez, não tanto pelo filme em si, mas por gostar muito da obra dos Irmãos Cohen. Sangue Negro, que assisti na semana passada, frustrou um pouco as minhas expectativas. Desejo e Reparação é excelente, mas não supera os meus três favoritos. Juno é um daqueles filmes cujo roteiro, com humor inteligente, fazem do cinema uma ótima diversão. Hoje à noite, a expectativa é se haverá ou não surpresa na escolha do melhor filme.

A renúncia

Agora há pouco, após o banho matinal, apanhei na minha caixa de correio a edição desta semana da revista Veja. Na capa, em que se destaca a cor negra, uma foto de Fidel Castro, de perfil. A manchete:"Já vai tarde".

A renúncia de Fidel Castro é o fato mais marcante da semana. Talvez, num exercício arriscado de futurologia, divida com a eleição do novo presidente norte-americano o título de principal fato de 2008.

Durante 49 anos de pode absoluto, Fidel amalgamou a imagem de santo e demônio. Líder da heróica Revolução de 1959, conseguiu, até o fechamento dos cofres soviéticos, construir uma nação com fantásticos índices de qualidade social. Por qualidade social entenda-se: excelente sistema de saúde público, com acesso a toda população; educação de qualidade, com erradição total do analfabetismo; desemprego zero. Para quem vivia em Cuba antes da Revolução, ou para qualquer habitante do terceiro mundo que sobrevive com as dificuldades cruéis da miséria extrema, viver em um país como esse equivaleria a mudar-se para o Paraíso. Comida, saúde, emprego, educação, é o mínimo necessário para a sobrevivência. O problema é esse, o mínimo não basta.

Se o mínimo já não era o bastante, após o cruel embargo norte-americano a Cuba, e sobretudo ao fim do auxílio financeiro soviético, sequer isso Fidel conseguia assegurar aos cidadãos cubanos. A saúde, que fora excelente, hoje é simplesmente boa. O analfabetismo continua erradicado. Já a comida, essa começa a escacear. Ainda não há fome em Cuba, mas a variedade de gêneros alimentícios é cada vez menor.

O lado demoníaco de Fidel, ainda que em muito inferior a de tantos outros ditadores que aterrorizaram a humanidade no século XX, revelava-se justamente na tática empregada para calar aqueles que não se contentavam apenas com o mínimo. Para estes, Cuba era uma prisão. Para os que se negavam a sujeitar-se ao poder instituído, a prisão perpétua ou o paredón era o destino inevitável. Casos como o dos boxeadores cubanos que se evadiram da delegação nos jogos pan-americanos do Rio de Janeiro são exemplares do quanto o governo de Fidel pode ser cruel para aqueles que não o aceitam.

Não existe liberdade em Cuba. E sem liberdade, não há dignidade. Sem liberdade, o ser humano não consegue realizar a plenitude da sua personalidade. Sem liberdade, há apenas subsistência. Vegetativa subsistência. E para Fidel, a liberdade sempre foi uma ameaça à Revolução. Por isso, viver em Cuba, mesmo que com comida (escassa), médicos e remédios de graça (estes, não se sabe até quando), não pode ser considerado um paraíso. Sem dúvida que, no todo, é melhor que antes da Revolução; mas não é o suficiente.

Fidel renunciou ao poder por problemas de saúde. Enquanto mantiver a capacidade de raciocínio, desempenhará o papel de eminência parda de um governo que, ao menos enquanto Raul permanecer no cargo, não se prenuncia como muito diferente do que é hoje. Diferente seria se representasse a ruptura dos grilhões, e desde que isso não representasse uma prostituição aos interesses norte-americanos.

Cuba não é o paraíso. Cuba não é livre. Mas a realidade de Cuba poderia ser muito pior. Por isso a manchete da Veja mais uma vez é tendenciosa e estúpida. Fidel não foi tarde. Fidel foi na hora certa, desde que com isso haja liberdade, sem libertinagem.


sábado, fevereiro 23, 2008

Negligência

Se deve, principalmente, à falta de tempo o pouco número de postagens neste ano de 2008. Fatos como a renúncia de Fidel merecem um bom comentário, mas não estou conseguindo dedicar tempo a isso. Ainda que não escreva a respeito, indico um blog de acesso obrigatório para quem tenha interesse em saber como vivem, de fato, os cubanos que permanecem a habitar a ilha. Generación Y é o blog da cubana Yoáni Sanchez. A capacidade de descrever com grande talento o cotidiano de uma cubana na ilha dos irmãos Castro torna o acesso ao blog indispensável. Sabemos que a restrição à liberdade de informação na ilha, bem como a parcialidade com que o noticiário internacional aborda os problemas de Cuba , dificultam a todos o acesso ao conhecimento do real estado do país. O link do blog é http://www.desdecuba.com/generaciony/.

Manifesto igualmente forte estranhexza pelo fato de que desde o último dia 19 de fevereiro, dia seguinte à renúncia de Fidel, nenhum novo texto foi postado no blog. O último, no entanto, merece ser lido. Trata-se de uma descrição de como Yoáni recebeu a notícia da renúncia de Fidel. Leiam.

sexta-feira, janeiro 18, 2008

A morte de Bob Fischer


Bobby Fischer entrou para a história por ser o primeiro norte-americano a sagrar-se campeão mundial de xadrez. A importância do título se deve ao fato de ter sido conquistado em pleno desenrolar da Guerra Fria e, sobretudo, por ser o xadrez o "esporte" nacional dos russos. Após o título (conquistado em cima de Boris Spassky, em 1972), Fischer literalmente "sumiu do mapa", voltando a competir somente no começo dos anos 90.

Em 1992 Fischer, já polêmico por suas constantes declarações contra os judeus, resolveu disputar um torneio na Iugoslávia, contrariando lei norte-americana que proibia os cidadãos estado-unidenses de participar de eventos naquele país. Em razão disso, no início do século, Fischer adotou a cidadania islandesa. A última polêmica em que se envolveu foi quando declarou apoio aos atentados terroristas contra o World Trade Center. Fischer morreu no Japão, permanencendo como o único norte-americano campeão mundial de xadrez, embora impedido de reingressar no solo em que nasceu.


quinta-feira, dezembro 27, 2007

Os Condores

Segundo os documentos oficiais examinados até hoje, a participação do Brasil na Operação Condor não consistia em cometer assassinatos. No entanto, os mesmos documentos - grande parte relatórios da CIA - revelam que militares brasileiros participavam diretamente na captura, no sequestro e na entrega de opositores aos diversos regimes militares da época. Se não "sujavam as mãos" executando as vítimas, os militares as entregavam aos vizinhos aliados, os quais, por sua vez, encarregavam-se de assassiná-las. Além de fornecer informações aos governos vizinhos, e sequestrar os "subversivos", os militares torturavam friamente os capturados.

Vozes de peso, como as dos ex-ministros do STF Francisco Rezek, Carlos Veloso, e do atual Ministro Marco Aurélio Mello, afirmam que os pedidos de extradição dos 11 indiciados pela Justiça italiana não deverão prosperar. Rezek afirma ainda que os crimes em que foram enquadrados (tortura, homicídio e desaparecimento) já estariam prescritos. Para penalistas de renome, como o advogado Belisário dos Santos Jr., os crimes de tortura, além de submeterem-se à jurisdição internacional, são imprescritíveis. Alguns especialistas invocam a Lei de Anistia como fundamento para a inimputabilidade dos 11 indiciados. O presidente da OAB, Cézar Britto, embora compartilhe da opinião de que os indiciados não podem ser responsabilizados penalmente, opina que a Lei da Anistia não pode impedir a abertura de processos que servirão como censura às condutas criminosas praticadas durante o regime. Na comarca de São Paulo tramita uma ação cível, cuja pretensão é a obtenção de provimento jurisdicional que declare que o ex-general reformado Carlos Alberto Ustra praticou crimes de seqüestro e tortura durante a ditadura militar.

Ainda que a extradição dos 11 indiciados seja inconstitucional e que a instauração de processo semelhante no Brasil seja improvável, a iniciativa da Justiça italiana é louvável, na medida em que sacode o tapete e revela um pouco da sujeira que ainda está escondida. Temos o direito de obter acesso à toda e qualquer informação referente às barbáries praticadas pelos condores brasileiros. A insistência em manter lacrados os arquivos de um dos períodos mais negros da nossa história é uma ofensa ao povo brasileiro.

quarta-feira, dezembro 26, 2007

Justiça italiana inicia devassa na Caserna brasileira

A BBC Brasil divulgou a lista dos 11 milicos que tiveram prisão preventiva decretada pela Justiça italiana por co-responsabilidade no desaparecimento de cidadãos italianos durante o regime militar. O governo brasileiro, por intermédio do Ministro Tarso Genro, afirmou que não poderá colaborar com o pedido de extradição. A Constituição Federal, tão vilipendiada durante os anos de chumbo, acaba servindo de escudo para os generelíssimos, uma vez que o Brasil não pode autorizar a extradição de brasileiros para responderem a processos no exterior.

Eis a lista:

Carlos Alberto Ponzi - ex-chefe do SNI em Porto Alegre

Agnello de Araújo Britto - ex-superintendente da Polícia Federal no Rio de Janeiro

Antônio Bandeira - ex-comandante do 3º Exército

Henrique Domingues - ex-comandante do Estado Maior do 3º Exército

Luís Macksen de Castro Rodrigues - ex-superintendente da Polícia Federal no Rio Grande do Sul

João Leivas Job - ex-secretário de Segurança no Rio Grande do Sul

Átila Rohrsetzer - ex-diretor da Divisão Central de Informações

Marco Aurélio da Silva Reis - ex-diretor do Dops no Rio Grande do Sul

Octávio de Medeiros - ex-ministro do Serviço Nacional de Informações

Euclydes de Oliveira Figueiredo Filho - ex-diretor e comandante da Escola Superior de Guerra e irmão do ex-presidente Figueiredo

Edmundo Murgel - ex-secretário de Segurança no Rio de Janeiro


Procuradas pela imprensa, as vozes da Caserna mantêm-se em silêncio sepulcral.

terça-feira, dezembro 25, 2007

A Raiz de todo mal?

Chuvinha gostosa, calorzinho suportável, preguiça pós ceia de Natal, distância geográfica, solidão inevitável...clima propicio para cometer o sacrilégio de curtir o ócio assistindo ao documentário The Root of Evil?, do biólogo e militante ateísta Richard Dawkins.

Antes de analisar as opiniões externadas por Dawkins, é preciso analisar o contexto em que são produzidas.

Nenhuma outra nação ocidental vive sob o jugo do fundamentalismo cristão como os Estados Unidos da América. Na verdade, os EUA são cria de um grupo de fundamentalistas protestantes que rumaram para o Novo Mundo com a firme convicção de que eram os escolhidos de Deus para a tarefa de construir a Terra Prometida. Há mais de 300 anos, essa idéia não soava de maneira tão maluca. Ocorre que hoje, esse tipo de pensamento, verdadeiro delírio coletivo que assola mais de 75% do povo norte-americano, é um grave problema. Mais de 135 milhões de norte-americanos acredita na existência do Inferno, dentre eles o Presidente. Pior do que acreditarem que o pecado conduz ao inferno, é achar que a purificação proposta pelas centenas de seitas neopentecostais lhes assegurará um lugar cativo no Paraíso; e que tudo o que aqui fizerem, desde que freqüentem os cultos e sigam a doutrina, lhes salvará.

O fundamentalismo cristão é um problema gravíssimo, verdadeira epidemia que assola as terras do Tio Sam. Uma nação em que as escolas, a grande maioria delas, execra a teoria da evolução e tem no Gênese a única fonte capaz de revelar a verdade sobre a origem da vida, padece de uma assustadora doença, carecendo de forte oposição em termos pedagógicos.

Para 80% dos norte-americanos, o Universo foi criado há menos de 6 mil anos. A Teoria da Evolução é uma falácia, um sacrilégio que reduz os filhos de Deus à meros animais.

É contra esse tipo de alienação que Dawkins se insurge, ferrenhamente, pregando que a religião é a raiz de todo o mal.

Dawkins discorre a respeito do fundamentalismo islâmico (fonte dos homens-bomba) e mosaico. Mas mais tempo a derrubar os dogmas cristãos.

Ao se dispôr a enfrentar tamanha batalha, contrapondo a luz da ciência às trevas da fé, Dawkins acaba, de forma paradoxal, pregando uma espécie de fundamentalismo científico.

Embora agnóstico, discordo que a religião, strito senso, seja a raiz de todo o mal. O fundamentalismo, sim, é uma das tantas raízes do mal reinante.

Religião e ciência, fé e razão, são formas diferentes de tentar descrever o homem, a vida, o Universo.

A religião se torna maléfica quando se apresenta como a dona da verdade, das verdades primeiras e últimas. Reconheço que a grande maioria delas se propõe a isso; mas existem muitas, todas elas de origem oriental, que se restringem a procurar ajudar as pessoas a buscar o auto-conhecimento. Não se preocupam em pregar verdades, mas ajudar as pessoas a encontrá-las, tudo em nome de uma finalidade única: viver segundo preceitos de solidariedade, de respeito e amor ao próximo e a si próprio.

À ciência incumbe a tarefa de descrever as regras do Universo. De contemplar e descrever. De se questionar ao infinito, sobrepujando teorias obsoletas e chegar o mais próximo possível da compreensão do todo - que se um dia acontecer, representará o seu próprio fim.

Não cabe à ciência provar ou negar a existência de Deus. Assim como não é tarefa da religião dizer como, quando e porque o Universo e a vida foram criados.

Quando cientistas e religiosos se conscientizarem a respeito de suas tarefas, e muitos o são, não haverá lugar para os fundamentalismos.

3 Filmes sobre a História da Irlanda

Domingo Sangrento (Bloddy Sunday), 2001, direção de Paul Greengrass

Em Nome do Pai (In the Name of the Father), 1993, direção de Jim Sheridan, com Daniel Day- Lewis, Pete Postlethwait e Emma Thompson

Michael Collins, 1996, direção de Neil Jordan, com Liam Neesson, Stephen Rea, Aidan Quinn e Julia Roberts